quinta-feira, 22 de março de 2007

OS EVANGÉLICOS E A VIOLÊNCIA NO GRANDE RIO

O Rio de Janeiro está sangrando. O sangue de milhares de cidadãos cariocas tem sido derramado todos os dias na nossa terra. Outro dia conversava com o Carlos Santiago que dirige a ONG Gabriela Sou da Paz. Ele e sua esposa Cleide, tiveram que enterrar no ano de 2003 sua filhinha Gabriela. Na época, com apenas 14 anos de idade. Perguntei-lhe: “Santiago, no meio dessa luta toda contra a impunidade, você foi ameaçado alguma vez?” Ao que ele me respondeu: “Ameaçado? Eu não estou nem aí para ameaça alguma. Perdi minha filha única. Eu não tenho mais nada a perder”. Hoje dei uma entrevista para um dos jornais da cidade. Perguntei ao repórter e o fotógrafo que o acompanhava: “O que vocês viram que mais os marcou?”. O fotógrafo apresentou um dos relatos mais tristes que pude ouvir em toda minha vida. Ele disse que outro dia participou do enterro de uma criança que havia sido morta (pareceu-me por bala perdida) numa favela de Niterói. A mãe, no seu desespero, clamava para que o filho voltasse à vida. Na sua dor incalculável, decidiu tirar a criança do caixão. Ao erguê-la, como se não bastasse o corpo inerte da pobre criança, o tecido que cobria o corpo do seu filho cai, mostrando o corte do alto do pescoço até o abdômen feito pelo legista que realizara a autópsia. A reação imediata de alguns dos presentes foi correr para recobrir o corpo da criança.

Poderíamos mencionar uma série de relatos mais de atrocidades que ocorrem todos os dias no Grande Rio. Nesses dias de envolvimento com essa causa, quanto mais mexo no tema mais assombrado fico com o que o homem tem sido capaz de fazer contra o seu semelhante na nossa terra. Não é só matar. É sacar a vida em meio à agonia da vítima, tornada sujeita aos mais diferentes suplícios. Resumo de tudo isso: o principal objetivo da organização do Estado – a preservação da vida – não tem sido alcançado pelo poder público.

O que a igreja evangélica tem a ver com tudo isso? Gostaria de apresentar os motivos pelos quais a igreja deveria começar a fazer alguma coisa:

1. A defesa do direito à vida é uma expressão da autenticidade da verdadeira fé. A fé sem obras é morta. E, nesse sentido, vale ressaltar que uma das principais obras da fé é o compromisso com a justiça. Quem diz crer e não pratica a justiça crê como os maiores facínoras que já passaram pelo solo desse planeta. Homens que diziam crer em Deus (Hitler menciona o nome de Deus várias vezes no seu Mein Kampf), mas que se comportavam como se não houvesse um Juiz justo e onipotente no universo. O que você sente quando lê o que foi relatado acima? O que você tem feito para combater esse mal?

2. Nossos irmãos na fé estão morrendo também. Crentes têm sido assaltados. Pastores têm sido mortos. Em alguns lugares da cidade é o crime organizado quem determina o horário e os dias do culto. Em muitas igrejas, as reuniões de meio de semana estão vazias porque as pessoas estão com medo de sair à noite de casa.

3. As ONGs que existem, muitas das quais lutando heroicamente pelo restabelecimento da paz, têm boas idéias, recursos e até um certo nome, mas não tem povo. Essa é a nossa diferença: somos milhares. Estamos na baixada, nos morros, na zona norte, na zona oeste, na zona sul, na Barra da Tijuca, nas praias; ou seja, no alto, em baixo, em cada esquina, buraco, loja e assim vai. E isto aos milhares. Estamos nas rádios, na televisão, na internet, nas revistas, nos jornais. Se um terço dessa gente toda não vale nada, mesmo assim somos milhares, muitos dos quais homens e mulheres que foram resgatados com braço forte pelo Deus altíssimo. Deus honrou o trabalho de muitos dos nossos pastores. Depois de anos no anonimato, orando e jejuando, gastando os melhores anos de vida na causa do evangelho, emergimos nesses dias como o fenômeno social mais extraordinário da história do Brasil. Estamos todos os domingos juntos. A facilidade de comunicação entre nós é enorme. Temos povo! O potencial transformador desse povo unido não foi explorado ainda. Imagino esse povo numa marcha com Jesus pela justiça e pela paz. Andando por onde ele andaria se estivesse entre nós no Rio de Janeiro. Sem participação popular o Rio de Janeiro não muda. E, me perdoe repetir – temos povo.

4. Surgiu recentemente um movimento na cidade chamado Rio de Paz. Eu o presido. Já organizamos dois grandes encontros na Cinelândia. Anunciamos a justiça do reino para os milhares de integrantes do bloco carnavalesco O Cordão do Bola Preta, que cantavam e dançavam no dia e na hora do nosso protesto público. Fomos para o Maracanã e fizemos pela graça de Deus uma torcida de futebol inteira gritar por justiça. Montamos um cemitério na praia de Copacabana para lembrar a todos como seria esse cemitério se todos os mortos de 2007 tivessem sido enterrados no mesmo lugar. Foi notícia no mundo todo. O movimento é da sociedade civil carioca, porém, com integrantes evangélicos e tendo sido gerado pelo sonho de evangélicos. Penso que poderíamos nos organizar em torno desse movimento. Se cada um de nós tentar fazer alguma coisa isoladamente, será só desperdício e ausência desse testemunho impressionante dado por um povo que decidiu emergir do seu sono.

No próximo dia 26 de março às 19H estaremos de novo na Cinelândia. Mais um protesto. Todos de camisa preta e vela acesa na mão. Porém, não só um protesto. Há um projeto factível nisso tudo. Em breve realizaremos o fórum sobre segurança pública convidando a participar as maiores autoridades sobre o tema. Uma pergunta norteará todo o debate: o que é necessário ser feito para que a onda de homicídio do Rio de Janeiro cesse? Com base nessas respostas, redigiremos um manifesto. Esse manifesto será entregue ao governador do Estado, numa marcha solene à noite, à luz de velas novamente. Deixaremos claro que a sociedade civil carioca está se unindo ao poder público para que juntos façamos o sangue do carioca passar a custar caro. Venha. Participe disso tudo. Sirva à sua geração. Creio sinceramente que o braço que faz agora, nesse momento, nove planetas darem volta em torno de uma bola de fogo suspensa nos espaço, estará estendido a nosso favor. Deus será glorificado através da sua e da minha vida.

Antonio Carlos Costa
Rio de Paz

2 comentários:

  1. Uma abraço, Pastor e boa continuação.

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  2. Ontem ouvimos manifestos muito signifcativos na Cinelândia, em especial o do Tico (contagem de corpos) e seu discurso final que foi excelente!
    Meus parabéns, pois de líderes assim que precisamos para fazer a nossa voz chegar aos ouvidos daqueles que deveriam lutar por nós e não em causa própria.
    Um grande abraço e pode contar comigo!

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